09 julho, 2010

É preciso cuidado com as simulações para planos de previdência

Fonte: Artigo da autoria de Beto Veiga intitulado É preciso cuidado com as simulações para planos de previdência, publicado no jornal Valor Econômico no dia 06/07/2010 - Disponível em: http://www.betoveiga.com/log/index.php/2010/07/artigo-sobre-previdencia-privada-no-valor/ - Acesso em: 8 de julho de 2010

As mudanças na previdência não se limitam à questão do futuro do INSS e da capacidade de pagamento de pensões. A principal mudança que se verifica é a alteração nos planos de previdência complementar da situação de benefício definido para contribuição definida. Essa última definição, um eufemismo para “o problema é seu”.

Os bons tempos do benefício definido nos deixavam como dúvida apenas o risco de crédito da empresa de previdência contratada. A contribuição definida (que utiliza o termo definida para denominar a sua escolha no momento de cada um dos depósitos), por sua vez, agrega à primeira dúvida a indefinição de quanto será a sua pensão no momento da aposentadoria.

Um dos maiores problemas que surgem é a questão das simulações. Relatórios de organismos internacionais apontam o dano que simulações enganosas podem causar na formação de poupança dos futuros aposentados.

Os vendedores dos planos utilizam-se da velha máxima de que o “papel aceita tudo”, aliás, de que um simulador de previdência aceita tudo. E o exemplo é simples. Vamos para um caso em que você utilize uma taxa de remuneração de 8% para depósitos de R$ 100,00 para um período de 30 anos, o valor acumulado bruto será de R$ 140.855,06. Se a taxa utilizada for de 4%, esse valor cairá para R$ 68.527,06.

Na hora de vender o plano, é melhor mostrar o número grande, uma vez que você irá se sentir tentado a fechar o contrato para adquirir o plano. E quando chegar a hora de se aposentar? Como fica?

A maioria das pessoas não tem a visão de que simulação não é compromisso. Se o valor dos juros utilizados na simulação for incorreto, o que vai acontecer é o seguinte: tanto você poupará menos do que o necessário para o seu objetivo, quanto terá que arrumar um dinheiro extra na hora de parar de trabalhar.

Desconhecer o assunto, portanto, faz surgirem três pontos básicos. O primeiro diz respeito a uma suposta conclusão óbvia: por que o futuro aposentado previdente não escolhe a taxa mais alta? Pelo simples fato de que é o mercado quem irá ditar as taxas máximas de juros a serem pagas. E o investidor, individualmente, somente poderá abrir mão delas. Para suplantá-las, são necessárias estratégias muitas vezes inacessíveis ao cidadão comum.

O segundo ponto refere-se aos juros reais (acima da variação da inflação). Quando você olha para os números pensa que são adequados, mas, passados 30 anos, provavelmente terão pouco valor. Para que tais montantes possam ser avaliados do ponto de vista do poder de compra na data de hoje, os juros utilizados têm que ser reais e não as nominais.

É muito comum o investidor desavisado equivocar-se e comparar os 8% com o valor da taxa básica, a Selic (hoje na casa dos 10,25% ao ano), e imaginar que se trata de uma estimativa conservadora para os juros, quando, na verdade, ela é extremamente ousada.

Atualmente, no país, a taxa de juros real da economia gira em torno de 4,5% ao ano. Assim, utilizar o valor de 4% para a taxa de juros é algo mais apropriado. Com essa taxa, aquele montante produzirá resgates de R$ 412,68 durante 20 anos, ou R$ 324,34 durante trinta anos ou, ainda, R$ 283,36 durante 40 anos.
Ainda com relação aos juros reais, para que os R$ 68.527,06 possam representar o real potencial de compra do dinheiro, é necessário que o poupador faça depósitos de R$ 100,00 ajustados mensalmente pela inflação.

Finalmente, o último é a questão dos custos dos planos de previdência. Se você errar nesse aspecto, o que já era pouco ficará ainda menor, porque os 4% de juros reais podem transformar-se em 1% (ou até ficar negativos, isto é, juros abaixo da inflação), o que reduziria sua poupança para pouco menos de R$ 42.000,00, diminuindo seu benefício em, pelo menos, 53%!

Seja realista com as taxas nas simulações de planos e evite procurar a consultoria de quem vende os produtos de previdência na sugestão dessas taxas. Ainda que os fundos apresentados para você exibam números robustos, seja previdente e lembre-se da máxima dos investimentos: rentabilidade passada não é garantia de retornos futuros.

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