01 março, 2010

O ALM como ferramenta de administração de uma seguradora

Disponível em: http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/o-alm-como-ferramenta-de-administracao-de-uma-seguradora/39079/. Acesso: 01/03/10 - em 25 de fevereiro de 2010, às 15h34min - Por Marco Pontes*

A importância do Asset-Liability Management – ALM sob a perspectiva do gerenciamento estratégico de uma Seguradora

A gestão estratégica de uma seguradora ou entidade aberta de previdência privada é complexa, pois envolve a administração de diversos tipos de risco. Neste artigo pretendo focar a importância do ALM como uma ferramenta eficaz no processo de gerenciamento de uma instituição que administra recursos de médio e longo prazo, bem como a importância do atuário no processo de definição da política estratégica de aplicação dos recursos financeiros dessas empresas.

Em 1962, Alfred Chandler descreveu em seu trabalho intitulado Strategy and Structure: Chapters in History of the American Industrial Enterprise, estratégia como sendo “a determinação de metas e objetivos básicos de longo prazo de uma instituição e a adoção de medidas de ação e alocação de recursos necessários para se atingir aqueles objetivos”. Asset significa (Ativo), Liability (Passivo), Matching (casamento) e Modeling (Modelagem). O conceito de ALM é amplo. Ao mesmo tempo em que se constitui uma ferramenta para gerenciamento de risco, visto que engloba todos os instrumentos de controle de riscos, é também uma ferramenta de gestão estratégica de grande valor para o administrador, pois abrange o planejamento dos planos ou produtos comercializados por essas entidades. O objetivo básico de uma Entidade Aberta de Previdência Privada -EAPP é acumular reservas capazes de honrar os benefícios de seus participantes. O ALM é um planejamento dinâmico que, a partir das características atuariais e individuais de cada produto, deve ser constantemente reavaliado e refinado de modo a estar em sintonia com a realidade dos produtos e a estratégia da empresa. Logo, não existe uma forma de ALM universal aplicável as empresas. O ALM deve levar em consideração as particularidades de cada organização para que se possa atingir às melhores expectativas que essa ferramenta oferece aos gestores.

O Mathing e o Modeling são conceitos derivados da aplicação estratégica do ALM. Todos estão familiarizados com o conceito de entrada de recursos em caixa, sejam eles provindos dos prêmios ou das contribuições recebidas, ou mesmo rentabilidade obtida no mercado por essas entidades ou com as saídas de caixa, quer seja por pagamento de sinistros no caso de seguro ou de rendas e pecúlios no caso de EAPP’s. O ALM compreende um conceito mais amplo. Como entrada de recursos a estrutura do ALM não prevê só os prêmios de apólices vigentes e futuras, como também o carregamento, a taxa de administração de fundos, os resgates de títulos com maturidade pré-definida, a valorização/desvalorização de ações, os ganhos com instrumentos derivativos e o diferimento de agenciamento e impostos que compõem a cesta de variáveis que são consideradas no processo de avaliação. Sob essa perspectiva, o ALM assume uma magnitude de importância à medida que as práticas correntes no Brasil de avaliação atuarial são determinísticas.

Para compreender na prática os conceitos de modelo determinístico e modelo estocástico de avaliação, apresento a seguir um exemplo típico de avaliação de um plano e previdência, segundo o modelo determinístico. Na prática, calcula-se uma esperança matemática do valor da provisão matemática com base em valores futuros de benefícios multiplicados pelas suas probabilidades médias de ocorrência. Em suma, no longo prazo, tal metodologia implica que um determinado plano tem uma “probabilidade de ruina”de 50%, isto é, em 50% dos casos os recursos não serão suficientes para pagar os benefícios, exigindo aportes adicionais e não-programados do patrocinador ou administrador do fundo, como queiram para cobrir a lacuna. A análise determinística é baseada em testes de cenários específicos que simulam o comportamento futuro do plano. Não quero com essa afirmação apregoar que o emprego de modelos determinísticos são inviáveis, pois as empresas, em geral, utilizam salvaguardas para compensar esse efeito. Seja por meio do emprego de hipóteses mais conservadoras em vez de hipóteses realísticas, à guisa de majorar as reservas técnicas para compensar o risco de não provisionamento de uma possível oscilação na reserva ou mediante compensação ou por meio de uma reserva com a finalidade de cobrir uma possível insuficiência. Nos produtos de seguros, a Superintendência de Seguros Privados – SUSEP exige do mercado a constituição da Provisão de Insuficiência de Prêmios – PIP e no caso de plano de aposentadoria, a Provisão de Insuficiência de Contribuição – PIC.

Já a análise estocástica é baseada em testes probabilísticos em que o comportamento futuro do plano é projetado estatisticamente a partir de múltiplos cenários, em que as ocorrências obedecem a uma determinada distribuição de probabilidade. A título de exemplo, a figura 2 (consulte-se) representa uma árvore de probabilidade de uma projeção estocástica, considerando a distribuição de freqüência do tipo Bernoulli para eventos de sobrevivência e persistência no âmbito de um plano de aposentadoria.

O ALM é uma ferramenta que utiliza processo estocástico. A título de exemplo, consideremos um EAPP que tem como objetivo básico acumular recursos capazes de honrar os benefícios que serão pagos no futuro aos participantes. Para que esse objetivo seja atendido, os produtos comercializados captam poupança de longo prazo que deve ser adequadamente investidas de forma que os retornos obtidos sejam suficientes para garantir o pagamento dos benefícios. Neste sentido, a atividade de gestão de recursos deve ser considerada estratégica para as EAPPs, pois viabiliza o atendimento do objetivo básico. A finalidade do ALM é estabelecer uma estratégia de aplicação dos ativos financeiros no longo prazo. Procura-se compatibilizar o fluxo de entrada de recursos com o pagamento de benefícios futuros de modo que a empresa obtenha ao longo do tempo a melhor rentabilidade possível, ou situação ótima. Os economistas conhecem bem o valor do custo de oportunidade, bem como as perdas que poderão advir da adoção de uma política equivocada da aplicação desses recursos. Existem vários tipos distintos de risco que afetam a gestão de uma EAPP, tanto do lado dos ativos quanto dos passivos atuariais dos planos. Dentre eles destacamos: (i) o risco de mercado que está associado às incertezas que geram oscilações de preços praticados diariamente pelo mercado para determinados tipos de ativos; (ii) o risco de crédito que está associado à perda potencial relativa ao risco financeiro, ético ou moral de determinada obrigação ou devedor; (iii) o risco operacional que está associado à ocorrência de problemas relacionados a controle e procedimentos operacionais inadequados; (iv) o risco de liquidez associado à dificuldade de se converter determinado ativo em dinheiro, ou seja, de ter que se vender o ativo a um preço teoricamente satisfatório, perdas do custo de oportunidade; e finalmente, (v) os riscos atuariais em função da adoção de premissas atuariais que divirjam da realidade, levando a projeções e cálculos imprecisos dos passivos atuariais.

A participação do atuário na condução desse processo é condição essencial para o sucesso de estudos desta natureza. Ninguém melhor que ele está capacitado para estabelecer a estrutura de modelagem do passivo. Nos Estados Unidos e na Europa, os atuários participam ativamente como condutores deste processo. No Brasil tal perspectiva de atuação é recente. Abre-se uma nova porta para a atuação desses profissionais. Da mesma forma, espero que, em breve a grande maioria das empresas procure imprimir maior tecnicidade na apuração dos custos e obrigações dos produtos que comercializam no mercado abandonando aos poucos os modelos determinísticos de avaliação e optando por empregar os modelos estocásticos de avaliação atuarial. Quando isso ocorrer, certamente o mercado terá dado um grande avanço.

Não obstante, na condição de atuário, gostaria de fazer um parêntese, pois, lamentavelmente em função da simplificação dos produtos que estão sendo comercializados pelo mercado, os atuários acabam sendo subutilizados pela grande maioria das empresas de mercado. Com isso, quem perde é a população de um modo geral. Ainda acredito que a participação do atuário em um nível decisório ocorrerá no Brasil, tal qual ocorre em outras economias. Na Inglaterra, para um profissional atingir a posição de diretor técnico de uma seguradora é pré-requisito ter formação atuarial e obter o registro junto aos órgãos responsáveis pela concessão do título, e - convenhamos - não é um processo simples.

* Marco Pontes é diretor da LG&P Advisory Services e membro da Academia Nacional de Seguros e Previdência – ANSP.

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