14 fevereiro, 2010

A próxima escalada da China

Valor Econômico | Opinião | SP - Disponível em: http://funenseg.empauta.com/funenseg/index.php?action=999&cod_noticia=960235257. Acesso em: 12/02/2010

País precisa equilibrar ações externas e internas. Mas não tem experiência nisso.
  Com uma disponibilidade mais ampla de seguridade social, seguros e serviços, as poupanças preventivas chinesas deverão cair.

A China começa a entrar em uma série de transições complexas, que assentarão as fundações para chegar à posição de país avançado, o que espera alcançar nos próximos 25 anos. Após 30 anos de crescimento sustentado e uma resposta notavelmente bem-sucedida à crise mundial, a autoconfiança chinesa está em alta. As lições que o governo poderia tirar da crise, no entanto, talvez não sejam os melhores guias no longo prazo.

A China depara-se com vários desafios paralelos e relacionados, que são cruciais para seu desenvolvimento interno, assim como para suas relações econômicas internacionais. Entre os desafios estão:

1) uma grande reestruturação microeconômica da economia para proteger a posição da classe média emergente;
2) uma mudança macroeconômica para elevar o consumo e renda das famílias e expandir a classe média;
3) a reversão da desigualdade de renda, agora em alta, por meio da redução do alto nível de poupança em relação aos investimentos e, portanto, da redução do superávit em conta corrente;
4) reduzir o crescimento futuro da intensidade de carbono e energia;
5) assumir maiores responsabilidades internacionais.

A China, de fato, chegou ao ponto em que seu impacto na economia mundial é importante de forma sistêmica. Chegou a esse ponto, contudo, com uma renda per capita muito menor do que qualquer predecessor sistemicamente importante. O motivo é que a China é, de longe, o país mais populoso do mundo a ter mantido uma forte taxa de expansão por 30 anos. Portanto, passar a lidar com sua própria influência internacional agora se soma a uma agenda política já complexa, em um momento em que a maioria dos países tem o luxo de manter um foco, em sua maior parte, doméstico.

A China precisa equilibrar essas prioridades internacionais e domésticas, mas possui pouca experiência histórica para guiá-la. (A Índia enfrentará esse problema em cerca de dez anos, enquanto continua com seu caminho de rápida expansão.)

Com renda per capita em torno a US$ 4 mil (mais pelo critério de paridade do poder de compra), partes importantes da economia chinesa já possuem, ou começam a ter, o status de classe média. É uma transição complicada, durante a qual muitos países perderam a força enquanto as transformações estruturais se atrasavam. Por exemplo, setores chineses exportadores de uso intenso de mão de obra vêm perdendo sua vantagem competitiva. É preciso deixar que decaiam ou que se mudem para o interior (e acabem decaindo posteriormente). Serão substituídos por setores que dependam de mais de tecnologia e capital humano.

A renda disponível das famílias chinesas é de cerca de 60% da renda nacional na China e o índice de poupança desses grupos familiares é próximo a 30% da renda disponível. Esses números são, respectivamente, mais baixos e mais altos em comparação a outros países. Para a China, isso coloca o consumo dentro de uma faixa entre 40% e 45% do Produto Interno Bruto (PIB). Para capacitar o mercado doméstico a guiar o crescimento da renda e acelerar o crescimento da classe média, esses números precisam mudar.

A renda das famílias precisa subir e, com uma disponibilidade mais ampla de seguridade social, seguros e serviços, as poupanças preventivas deverão cair. Essas duas coisas sustentarão a transição da classe média ao expandir a função do mercado doméstico como motor do crescimento. Também ajudarão a reforçar a expansão diante da probabilidade de enfraquecimento da demanda mundial.

Ainda mais importante, no entanto, é que o forte crescimento do mercado doméstico, especialmente do setor de serviços, precisa substituir em grande parte o setor exportador como motor do emprego, colocando a população rural na economia moderna. À medida que o setor exportador entrar em setores de maior valor agregado, não exercerá mais essa função, como no passado.

O governo detém mais de 50% das estatais restantes, mas não precisa nem usar a renda. Uma grande parte dessas fontes de renda (empresas e governo) precisa ser redirecionada para o setor doméstico.
Alto crescimento e urbanização levaram a fortes aumentos de renda nas áreas urbanas e a elevações menores nas áreas rurais. Um grande grupo de trabalhadores e famílias migrantes (na ordem de 150 milhões a 200 milhões de pessoas) formalmente ainda é contabilizado em áreas rurais, mas na verdade são residentes urbanos marginais, com direitos e acesso a serviços limitados. O aumento nas tensões sociais resultante disso está sendo resolvido com a expansão dos serviços rurais, investimentos em infraestrutura urbana e regularização do status dos migrantes.

A China enfrentou desafios assombrosos no passado - e, em geral, superou as previsões dos céticos. Agora, no entanto, se depara com pressões e responsabilidades internacionais. O país, no entanto, também enfrenta um cenário externo que, ocasionalmente, é hostil à forma de governo do país; que algumas vezes minimiza ou deprecia a rápida ascensão de milhões de chineses para longe da pobreza; que tende a ver a economia mundial como um jogo em que se alguém ganha é porque alguém perdeu; e que, equivocadamente, atribui o sucesso econômico da China a políticas não cooperativas em áreas como a administração das taxas de câmbio.

A China precisa confrontar o desafio de promover uma reestruturação doméstica para sustentar o crescimento, enquanto defende o direito de se desenvolver sem ser penalizada por seu tamanho. Também precisa, contudo, assumir maior responsabilidade pelos desequilíbrios internacionais, pela estabilidade econômica e financeira e pela governança, além de representar os países em desenvolvimento menos poderosos. O resto do mundo tem muito em jogo dependendo do resultado dessa complexa tentativa de equilíbrio.

Michael Spence, premiado pelo Nobel de Economia em 2001, é professor emérito da Universidade Stanford e presidente da Comissão de Crescimento e Desenvolvimento. Copyright: Project Syndicate, 2010 - www.project-syndicate.org

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